quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Vocês já conheceram uma vítima de estupro?

Vocês já conheceram uma vítima de estupro?
Por: Shirlei Noveletto


Conheci Sophia no primeiro dia de aula da faculdade. Como eu, ela também estava meio perdida... A faculdade é bem diferente do Colégio, a gente sai da galera do Fundão e cai em uma sala cheia de figurões, tinha gente mais velha, outras tribos e uma mina com o cabelo cor de rosa... Como diria meu saudoso Russo "festa estranha, gente esquisita"... Sophia se parecia mais comigo, quase completando 18 anos, vinda de escola pública, ralando pra pagar a faculdade particular, e talvez até por falta de opção, fomos nos tornando cada vez mais próximas... éramos a dupla fixa de todos os trabalhos, e descobri que o sonho de Sophia era ser âncora do Jornal Nacional quando se formasse em jornalismo, eu queria ter uma rádio comunitária, fazer jornal de bairro... A gente era bem diferente... ela era mais delicada que eu, mas isso quase todas as moças são.


Percorríamos duas quadras a pé do ponto de ônibus até a faculdade. Era escuro, desabitado, mas como sempre tinha muito aluno passando por ali nem imaginávamos que algo de ruim podia acontecer.

Já tínhamos concluído os dois primeiros períodos e ela já sonhava com a formatura, eu só pensava em beber vinho no estacionamento com a galera...
Quase encerrando o ano, em uma das provas finais, Sophia não apareceu, mandei mensagem de texto (não tinha Whatsapp naquela época)... não tive resposta... no final da aula fiz o trajeto sozinha até o ponto de ônibus... no meio do primeiro quarteirão reconheci o tênis cinza com os cadarços coloridos de Sophia na beirada da calçada... ela estava ali em algum lugar, em desespero comecei a gritar seu nome, parecia que minha garganta sangrava, outros alunos correram e entraram na mata junto comigo... ela não estava longe, logo avistamos um corpo encolhido e um gemido quase inaudível... ela permaneceu ali imóvel por no mínimo 4 horas. Os braços envoltos no corpo cobriam os seios nus, em um impulso quis tirar minha blusa pra cobri-la, mas uma rapaz segurou meus braços e em câmera lenta o vi tirando a camiseta e entregando a mim pra eu poder vesti-la... fiz um esforço enorme pra ela liberar seus braços e vesti-la... quando enfim soltei o primeiro braço que cobria seu colo, percebi que seu mamilo direito havia sido arrancado, mas a pressão que ela fez com seus braços havia estancado o sangue... Como quem cuida de um bibelô frágil, passei suavemente seus braços pelas mangas da camiseta. Um de seus olhos estava fechado, e um pequeno corte havia sobre a sobrancelha... passei delicadamente sua cabeça pela gola, havia mechas de seus cabelos arrancados por todo lado, repousei a cabeça dela na grama... 

A essa altura, já havia muita gente ao redor, acho que gritavam, choravam, perguntavam se ela estava viva... alguém tocou meu ombro e disse: a polícia e os bombeiros estão a caminho... só fiz sinal que sim com a cabeça e me dirigi até a outra ponta do corpo de minha amiga... fui subindo sua calça jeans que estava na altura dos tornozelos, seus joelhos estavam ralados e tinha pedrinhas dentro dos cortes... na altura da coxa haviam mordidas e arranhões, ajeitei sua calcinha que havia sido rasgada em uma das laterais, havia fezes, urina e sangue... muito sangue... fechei o zíper, o botão da calça não estava mais ali... alguém me entregou o tênis que estava faltando e eu o calcei em Sophia. 

Voltei engatinhando até a cabeça de Sophia, deitei ela no meu colo... os bombeiros chegaram e pediram pra eu me afastar. Sophia foi colocada em uma maca, fui com ela na ambulância... eu segurava a sua mão e cantava: boi boi boi... boi da cara preta... Sophia não se formou com a nossa turma, nem voltou mais a faculdade... e essa cantiga de ninar me faz chorar desde então.


terça-feira, 4 de setembro de 2018

COMO É SER FELIZ???

Por:  -  Shirlei Noveletto


 Já passava das oito, como sempre eu estava atrasada, tinha dormido pouco na noite anterior, alguns pensamentos me tiraram o sono, uma angústia que eu não conseguia explicar, ao meu redor o apartamento recém mobiliado... estava lindo, do jeito que eu planejei, mas nem de longe aquele parecia o meu lugar. Me culpava mais ainda pela ingratidão que eu mesma sentia com minhas próprias conquistas, a dificuldade de reconhecer que eu tinha mais do que muitas pessoas, me fazia sentir ainda mais pequena. Eu tinha consciência, mas não tinha controle sobre a dor que sentia. 

 Corri para o ponto de ônibus, deu tempo de embarcar no coletivo e receber o tradicional “bom dia” do motorista, sentei-me na janela, observava as pessoas andando pela calçada, me perguntava se elas eram felizes, se tinham filhos, casa, trabalho, sonhos... e desejava ser uma delas, viver outra vida que não a minha... até o mendigo pedindo esmolas me causava inveja, havia nele uma liberdade que talvez eu nunca conseguisse alcançar. Cheguei na loja em tempo, coloquei meu uniforme, prendi os cabelos, passei uma maquiagem leve e estava pronta! O dia transcorreu normalmente, atendi vários clientes, recebi algumas cantadas que fizeram minhas bochechas rosarem, me diverti com clientes que insistiam em querer entrar em um manequim duas vezes menor, almocei com meus amados colegas, combinamos de ir a praia no final de semana, rimos muito... olhando de fora, eu parecia ter muita sorte na vida, mas por dentro eu era apenas um esboço de ser humano, em uma tentativa desesperada de que alguém enxergasse a dor que eu carregava. 

Não me recordo exatamente o dia que a tristeza chegou em minha vida, foi devagarinho, fiquei com vergonha de pedir ajuda, e ninguém percebeu que eu morria um pouco a cada dia, e tudo foi perdendo a graça, a comida perdeu o sabor, os conselhos não atingiam mais meu coração, os momentos felizes eram tão rasos, o esforço pra tirar esse sentimento de dentro de mim era desesperador, e quando eu escutava as pessoas dizendo que eu era fraca, que não sabia dar valor ao que tinha, que eu deveria rezar mais... mal sabiam elas do meu esforço pra permanecer aqui, nem ideia faziam de quantas noites passei de joelhos rogando à Deus para que me curasse... das vezes que levantei disposta, troquei a cor das paredes, mudei os móveis de lugar, e parecia que ia ficar tudo bem, que eu iria conseguir... e eu ficava contente com meu feito, olhando ao redor com orgulho o resultado da minha nova decoração, mas de repente o sorriso ia embora, não fazia sentido mais nada... mais nada fazia sentido. Não me julguem, é só o que eu peço, não foi fraqueza ou covardia, eu tentei, juro que tentei... o médico disse que os remédios me ajudariam, ele estava certo, o que eu fiz foi apenas mudar a dosagem... em poucos minutos a cartela estava vazia em cima da cama, deitei calmamente sobre o edredom que mamãe me deu de aniversário... os maus pensamentos foram embora, e eu descansei.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018


BEM FEITO! - TOMA!!!

PICHADOR RECEBEU DO PADRE ESTA RESPOSTA
Sacerdote dá uma incrível resposta para jovem que pichou sua Igreja com frase pró aborto

Facebook: Parrocchia san Michele arcangelo e santa Rita

Há uns dias a fachada da Igreja São Miguel Arcanjo e Santa Rita em Milão, Itália foi pichada por algum grupo pro-aborto com o lema “Aborto livre também para Maria”.

Diante da blasfêmia, o Paróco da dita Igreja, o Padre Don Andrea, decidiu publicar na página do Facebook da Paróquia uma resposta aos pichadores.

O texto é tão bom que já foi publicado milhares de vezes.

Estimado escritor anônimo das paredes,

Lamento que não sejas capaz de seguir o exemplo da sua mãe. Ela teve coragem. Ela te concebeu, continuou com a gravidez e te deu a luz. Poderia ter abortado. Mas não o fez. Te criou, te alimentou, te limpou, te visitou. E agora você tem uma vida e a liberdade de escolher fazer o que quiser com ela.

Uma liberdade que está usando para dizer-nos que seria melhor que pessoas como você não venha a este mundo. Lamento, mas não estou de acordo. E realmente admiro sua mãe porque ela foi valente. E com certeza ainda é, porque, como qualquer mãe, está orgulhosa de ti, mesmo se te comportas mal, porque sabe que dentro de ti há coisas boas e só precisa descobrir como fazê-las sair.

O aborto é uma coisa sem sentido. É a morte que vence a vida. É o medo que ganha um coração quer lutar e viver, não morrer.

Você quer escolher quem tem o direito de viver e quem não tem, como se fosse um direito simples.

É uma ideologia que supera a humanidade e quer tirar a esperança. Toda esperança. Admiro todas aquelas mulheres que, apesar de mil dificuldades, tem o valor para seguir em frente. Você, valor, não tem nenhum, já que te escondes no anonimato. E já que estamos, também gostaria de te dizer que nosso bairro já tem muitos problemas e que não precisa de gente que mancha as paredes e arruíne o pouco de bem que nos resta.

Quer mostrar que é valente? Faz do mundo um lugar melhor, ao invés de querer destruí-lo. Ame no lugar de odiar. Ajude os que estão passando por dores, aos que estão sofrendo. E dê sua vida, ao invés de querer tirá-la! Estes são os verdadeiros valentes!

Felizmente, nosso bairro, o que você tentou destruir, está cheio de gente valente! Que sabem amar-te também a ti, que nem sequer sabe o que escreves.

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

POR: - Shirlei Aparecida Noveletto


ÉRAMOS TRÊS


Quando recordo de minha infância, lembro-me das tardes frias de inverno em que eu o John fazíamos bonecos na neve... das manhãs de outono em que as folhas secas cobriam o asfalto cinza da rua... das noites da primavera florida em que eu e Sofia colhíamos as flores do jardim e enfeitávamos a mesa de jantar... John era meu melhor amigo... o melhor amigo que alguém poderia ter... Sofia era minha irmã... a melhor irmã que alguém poderia ter... John, tinha dificuldade em andar... arrastava uma das pernas, seqüela de uma doença grave que teve dias depois de nascer... essa mesma doença, afetou-lhe a visão, aprisionando-o aos óculos de lentes grossas... Sofia parecia flutuar quando andava, tinha a leveza do vento, parecia uma princesa de um conto de fadas... seus olhos eram verdes. John me ensinou a andar de bicicleta e me ajudou com as tarefas de matemática... Sofia ensinou-me a dançar, e me ajudou a combinar as roupas com os sapatos... John e Sofia tinham 16 anos, estudavam na mesma classe, em uma escola a poucos quilômetros de casa, eram vizinhos de porta... mas tirando isso... não tinham mais nada em comum. Sofia era líder de torcida, ovacionada em cada performance que fazia... John se vestia de mascote, suando de baixo da fantasia grossa... foi o mais perto que ele conseguiu chegar do time de futebol... Sofia tinha um milhão de amigos... John tinha a mim... Sofia freqüentava muitas festas, John nunca era convidado para nenhum evento, em compensação, John recebeu o primeiro pedaço de bolo de todos os meus aniversários. 


Eu era mais nova que John e Sofia... e ambos me amavam e cuidavam de mim como uma jóia preciosa, lembro-me bem de quando tive catapora, Sofia ficou comigo o tempo todo! Me deu remédios, mediu minha febre... e John, lia pra mim inúmeras histórias, para que a imaginação me libertasse daquele quarto. Sofia me amava porque eu era sua irmã... John me amava porque eu era dele a única companhia... Todas as manhãs eu acordava apressada para despedir-me de Sofia que entrava no ônibus escolar com seus passos de rainha... John saía logo em seguida, acenava e mandava-me um beijo de longe, mas fazia o caminho a pé, embora estudassem na mesma escola e freqüentassem a mesma classe, John deixou de utilizar o transporte escolar, não aguentou as chacotas que faziam sobre sua paralisia, por vezes ele foi agredido verbal e fisicamente pelos outros alunos... Sofia seguia no ônibus amarelo, fofocando com suas amigas... John seguia a pé, chutando as pedrinhas do caminho... Um ano antes, em meados de Maio, aproximava-se o aniversário de quinze anos de Sofia, meus pais fizeram pra ela uma grande festa, todos os seus amigos estavam lá, vovô com seu cachimbo fedorento e vovó com o seu coque grisalho chegaram uma semana antes da festa, foram muitos os preparativos, música, roupas, convites, bolo, doces, salgados, o ponche de maçã não podia faltar... era o preferido de Sofia... O grande dia chegou, 17 de Maio... Sofia estava ainda mais linda, com um vestido rosa, uma coroa de flores lhe enfeitava os cabelos... minha irmã era realmente linda! Em poucos instantes nossa casa estava cheia... cheia de amigos, familiares, cheia de alegria e comemoração... John não estava lá... A certa altura, depois de ter roubado alguns doces antes da hora... resolvi deixar a festa por um instante, pois a música alta começava a incomodar meus ouvidos de criança... ao chegar a rua, notei John, sentado na calçada a frente de minha casa, sozinho e de cabeça baixa... voltei pra festa apenas para roubar mais uns doces, mas dessa vez eles eram para o John... comemos os doces, e só não fiquei ali o resto da noite, porque mamãe sentiu minha falta e me colocou pra dormir... 

Aquela noite foi a mais especial da vida de Sofia, ela dançara valsa com meu pai, recebeu muitos presente e felicitações, trocou de roupa três vezes e cada aparição sua surpreendia os convidados com sua beleza majestosa. Aquela noite foi a mais importante pra mim também, sentada na calçada, John me ensinou onde eu deveria cavar para achar as melhores minhocas pra nossa pescaria, me ensinou alguma coisa sobre a via Láctea e mostrou-me e deu nome a algumas estrelas que enfeitavam o céu naquela noite... Quando deitei-me na cama, lembro de ter agradecido ao “papai do céu” pela vida de Sofia, minha irmã querida que me ensinou tudo sobre maquiagem e meninos... e pela vida do meu amigo John que me ensinou a amarrar os sapatos e me explicou que sapos não tem dentes e eu não precisava temê-los. No ano seguinte a vida corria normalmente, Sofia com 16 anos, era castigada frequentemente por meu pai, devido aos inúmeros pretendentes que ela tinha e a conta enorme de telefone que chegava todo final de mês. Sofia era tão linda... John com 16 anos, era castigado diariamente pelas inúmeras espinhas que lhe cobriam o rosto, e pelos incontáveis apelidos à ele atribuídos. John era tão lindo...
Era final de Junho de 1986, eu estava eufórica... era o último dia do ano letivo, e eu teria Sofia só pra mim, para ensinar-me novos passos de balett; eu teria John só pra mim, e enfim construiríamos a nossa pipa cor de rosa... Como de costume, levantei cedo e despedi-me de Sofia, e como sempre ela adentrou o ônibus amarelo com toda sua realeza... John estava atrasado, aguardei alguns instantes na janela, e enfim ele apareceu, acenou, mandou-me o beijo costumeiro e pude ler em seus lábios a frase mais profunda já proferida pelo ser humano: “eu te amo”... fiz um coração com as mãos em retribuição... Corri para meu quarto, puxei meu cobertor de estimação, desci lentamente as escadas e deitei-me no sofá, mudando constantemente de canal para achar meu desenho animado preferido, na ânsia que a manhã acabasse logo e que as férias nos dessem boas vindas... eram 7:45 e eu olhava desesperada para o relógio, como se meus olhares pudessem adianta-lo e assim chegar mais rápido as 12h, a hora mais esperado do dia, quando minha Sofia e meu John voltariam pra casa... 

Peguei no sono... fui acordada com o barulho do telefone, olhei rapidamente o relógio... ainda eram 10h, ajeitei-me novamente no sofá, mas de lá fui brutalmente tirada pelo grito desesperado de minha mãe... Algo de errado tinha acontecido... foi na escola... foi com Sofia... Haviam invadido a escola, vários tiros foram ouvidos... Sofia estava morta... John era o assassino! Foi duro ajudar minha mãe a escolher a roupa para o funeral de Sofia... foi duro olhar para o outro lado da rua e ver a casa de John vazia... A última vez que vi Sofia, foi quando saía de casa para a escola, seus cabelos estavam soltos e ela usava o uniforme azul, a última vez que vi John, foi no seu julgamento, seus cabelos estavam raspados, ele usava uniforme laranja e pude ver, por debaixo das lentes grossas, que as lágrimas lavavam seu rosto. Sofia agora repousa num verde gramado, num lugar calmo, com uma foto linda esculpida na lápide de mármore... John foi condenado a morte, e aguarda inquieto o dia em que uma injeção lhe adentrará as veias e o levará daquele corredor escuro. Amarei Sofia eternamente por tudo o que ela fez por mim... e a odiarei pelo resto de meus dias pelo que ela fez com John... Amarei John pelo resto de meus dias por tudo o que ele fez por mim... e o odiarei eternamente pelo que fez com Sofia...

sexta-feira, 13 de julho de 2018




Shirlei Noveletto - Administradora de empresa
Emoção... suspense e realismo.

A PAZ QUE EU MEREÇO

Sinto-me fraco, a respiração pesada e a dor no peito não me deixam pegar no sono... Sinto minha pele perdendo o brilho, a visão turva e a garganta seca... Não me alimento há dias, mas não sinto fome... Não durmo há semanas, mas tenho pesadelos... Não me levanto dessa cama há meses, mas não sinto falta de andar nas ruas... Escuto com dificuldade as crianças brincando do lado de fora, ás vezes elas brigam, mas quase sempre as janelas estão fechadas... Uma vez por semana recebo visita, o rosto familiar, é sempre o mesmo menino que troca meu cilindro de oxigênio e despede-se me olhando com compaixão... confesso que nos últimos anos, ele é o único rosto que tenho visto. 

Não me lembro ao certo quando adoeci, o tempo passa diferente para quem tem os dias contados, é um calendário paralelo, estranho e perturbador... não tem horário de almoço, nem fim de tarde, dia de passeio... Um dia desses consegui dormir, gostaria de dizer que sonhei coisas bonitas, mas eu apenas adormeci... fui despertando com uma conversa ao fundo, parecia distante, mas vinha da sala de minha casa. Era Dona Filomena, Filó para os íntimos, uma vizinha muito prestativa, que limpa minha casa toda semana, mas nunca aparece no meu quarto para me ver... ela conversava com outra pessoa, não consegui reconhecer a segunda voz, realmente não sei quem era, comentavam sobre minha família nunca ter aparecido, e nem meus amigos, falavam também em chamar o padre, para que eu confessasse meus erros e me despedisse da vida. 

Achei aquilo engraçado... e até sorri... Talvez Dona Filó via em meu velório um acontecimento social, no qual poderia, enfim, usar seu vestido preto, contar detalhes dos meus últimos momentos às amigas, fingir chorar, ser consolada pela perda... como eu gostaria de dar-lhe essa alegria, mas eu não estava no controle... nunca estive, essa escolha não era minha. Também achava graça, quando ela tentava justificar meu sofrimento, dizendo que em algum momento eu deveria ter cometido um grande erro, e que tudo o que me acontecera eram conseqüências dos maus passos e sacrilégios por mim cometidos... Fui um bom filho, ia à Igreja de vez em quando, não me lembro de ter faltas graves e por isso não via minha doença como um castigo... mas o que isso importa??? Era o fim de qualquer forma, por castigo, por ironia do destino, por falta de cuidado... não importa, era o fim. Aos poucos meus braços não conseguiram mais alcançar os remédios na cabeceira da cama... Continuei sem comer, sem levantar-me, via cada vez menos o menino do oxigênio, o barulho das crianças ficou cada vez mais raro e a voz de Filó nunca mais ouvi... mas consegui adormecer... profundamente...

quarta-feira, 11 de julho de 2018


PÕEM A SEMENTE NA TERRA NÃO SERÁ EM VÃO...

Mutirão plantio Horta Comunit. N.Senhora da Luz
Numa das Celebrações da Vida promovida pela Pastoral da Criança, na Comunidade Nossa Senhora da Luz, uma das mais carentes
Simulação - Osmar e Suely
da Paróquia Santa Teresinha de Lisieux; vendo uma vasta área de pátio ociosa dando lugar às ervas daninhas, sugerimos que se fizesse uma horta comunitária, para atender as carências alimentares das famílias atendidas pela Pastoral da Criança e dar às pessoas da própria comunidade, condições de dispor de uma alternativa alimentar de melhor qualidade.

A ideia deu tão certo, que logo contatamos com a Prefeitura Municipal e através da Secretaria da Agricultura, providenciaram a preparação do terreno e cederam duas mil mudas de hortaliças diversas. Coube à comunidade plantar e regar as mudinhas que estão crescendo e que logo poderão ser consumidas

EU NÃO TENHO VERGONHA DE DIZER QUE SOU CAIPIRA

Desde pequeno “trabalhei” na roça. Meu pai era professor e proprietário de dois sítios na localidade chamada Portão, município de Mangueirinha, uma região com centenas de pequenos agricultores. Depois a agricultura familiar deu lugar ao latifúndio e quase todos migraram para diversas cidades, a ponto das virarem um mar de plantação de soja, florestas devastadas e fontes de água secaram. Num desses episódios, a Vila São José onde concentrava uma grande quantidade de agricultores, foi extinta e a última casa a ser demolida foi a Capela onde os moradores se reunia para o Culto Dominical e as Santas Missas, em regra celebradas pelo então pároco, Frei José Urbano Monteiro.
O que eu mais gostava na agricultura, era quando se faziam os mutirões, lá a gente chamava de “puxirão”. Geralmente para carpir, roçar, colher. Aconteciam geralmente num sábado até o meio dia. Era a forma dos colonos se ajudarem. Sem depender de pagar mão-de-obra escassa e cara.
Mutirão  Horta 
Ao meio dia, era servido um suculento almoço de quirera de milho socado no monjolo misturada com carne de porco... nem preciso dizer que eu ia nos mutirões para distribuir água e cachaça aos trabalhadores, mas só pensando no almoço


De quebra, para recompensar os trabalhadores, à noite rolava um baile no terreiro do galpão iluminado pelos candeeiros e lampiões a querosene. Como a iluminação era precária, isso contribuía para os namoros, que sempre acabavam em bons casamentos. E os fandangos animados geralmente por um dos saudosos gaiteiros: TAÍCO, DOMINGOS FELICIANO, CHUNA., tocavam Xote e rancheira, mas à noite inteira só dançavam valsa.. sempre bem hidratados com cerveja quente, pois não existia geladeira, ou cachaça Oncinha. Em via de regra, os fandangos iam até clarear o dia, se nenhum “venta furada” resolvesse desmanchar o baile, atirando no lampião. Ao chegarem em suas casas no domingo de manhã, homens e mulheres percebiam que suas narinas estavam pretas de picumã da fumaça dos lampiões e cuspindo tijolinhos de tanta poeira aspirada que levantava do terreiro de chão batido. De alguma forma plantavam a solidariedade e a esperança na convicção do... NÃO SE PREOCUPE A COLHEITA, PLANTA PARA O IRMÃO.

terça-feira, 10 de julho de 2018

ERA UMA VEZ OFIM

Tem mais um texto engrenado aí?
Tuas crônicas são supimpas!
Deixa rolar...
Shirlei Noveletto - Administradora de Empresa


ERA UMA VEZ... O FIM 

Ele sabia o que estava fazendo, sentia-se sóbrio... mesmo depois de cinco doses de whisky... um turbilhão de idéias lhe inundaram a mente, o velho e famoso filme da vida inteira passando diante dos olhos em poucos segundos, e pode entender que não foi ele o protagonista... junto veio a imagem dela... pôde sentir seus lábios tocando os dela, como no primeiro beijo a 20 anos atrás. O perfume dela inundou a sala, como se mandasse embora a fumaça do cigarro... era floral e doce... e amargo.
Ele sabia que não tinha mais volta, não importava o quanto se esforçasse, há perdas irreparáveis, feridas que não cicatrizam. Um passo errado, uma pequena mentira, o imenso orgulho... parecia um Castelo, quem sabe um dia ele até foi o próprio rei. No pequeno rádio tocava o velho tango que embalou as noites de sua juventude, mas a música não lhe dava mais prazer, trazia em suas notas e versos a sinfonia da tristeza, a melodia do fracasso e da decepção. Ele sabia o que estava fazendo, mas não tinha mais certeza de sua sobriedade... a corda já estava no pescoço, faltava agora, apenas um passo... um pequeno impulso. Por um instante teve a impressão de ouvir seu nome, como se alguém estivesse ali... bobagem. Estava sozinho e sabia de quem era a culpa. Apenas um passo, somente um pouco e os pés, agora firmes em cima da cadeira, poderiam levá-lo dali, toda dor seria extinta... todo sofrimento cessaria. A pequena espera... como se por milagre a porta fosse se abrir, o último olhar ao redor de tudo que possuiu um dia... os quadros na parede, o porta retrato na estante da sala... a mancha de vinho no sofá bege... Sentiu o abraço da coragem que lhe faltou na hora de assumir seus erros... era forte, era reconfortante... O empurrando pra frente, com a calmaria que há muito tempo não sentia. Ele se entregou à ela, como nunca havia se entregado a ninguém. Foram poucas flores, muita terra e por fim a escuridão.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Oi Shirlei! Eu gostei da tua crônica anterior
Então minha filha, manda outra... eu deixo.

Shirlei Noveletto - Administradora de empresa

ESTÁ ESCURO AQUI!

Eu gosto do escuro... meus defeitos ficam menos visíveis, e por vezes nem são percebidos. É mais fácil ser eu mesma sem ninguém me observando.
Eu gosto do escuro... ele me permite relaxar todos os músculos, descontrair o abdômen... descansar. Eu gosto do escuro... ele me traz a legitimidade do meu ser e ao mesmo tempo me permite ser outras, ser quem eu quiser ser.
Eu gosto do escuro... ele me liberta das regras, da postura, da exigência. Eu gosto do escuro... a forma envolvente que ele me abraça, me acalma... Eu gosto do escuro... ele me isenta da maquiagem, dos penteados, da perfeição que nunca consegui alcançar. Eu gosto do escuro... de olhos abertos ou fechados não faz diferença, é escuro, e também é calmo, é mais leve e menos doloroso. O cheiro das flores me incomoda um pouco, eu sei que são trocadas toda semana, a cera da vela as vezes escorre pelas frestas do mármore, invade a madeira e gruda nos meus cabelos, e mesmo no escuro eu tento me livrar da parafina. Ouço as preces da minha mãe do lado de fora, todos os dias, sempre no mesmo horário, tenho a impressão que ela chora... tá tudo bem mamãe... Eu gosto do escuro.

quinta-feira, 5 de julho de 2018


BLOGGER PARTILHADO
Shirlei Noveletto - Administradora de empresa
Vou partilhar meu espaço aqui com alguém muito especial. Minha filha, Shirlei Noveletto, aquela menina que nasceu no banco traseiro de um fusca da Copel e que teve seu pai como parteiro. Pedi a ela que publicasse algumas crônicas, uma vez que ela se expressa muito bem, característica de quem lê bastante.
Vai lá, minha filha!
Agora é contigo.

E O QUE VOCÊ TEM POR DENTRO???? 
 E quando a vi adentrando o salão de festas, com seu luxuoso vestido azul, me encolhi na cadeira, conseguia ver a ponta de seus sapatos importados, reluzindo a cada passo que dava, escondi meus pés debaixo da mesa... Ela tinha em seus pulsos adereços de prata e um colar de esmeralda enfeitava seu colo... e eu tinha apenas os brincos pequenos de pérola herdados de minha avó... Seus cabelos soltos lembravam o por do sol... de um avermelhado quase
natural... senti-me envergonhada pelo coque simples que tinha feito minutos antes... Quando se aproximou, o seu perfume tomou conta do ambiente, o mesmo cheiro das rosas de meu jardim... desejei que ela não me cumprimentasse, para que eu não precisasse expor minhas mãos calejadas e as unhas sujas de terra... Ela apenas sorriu, seus dentes eram brancos e enfileirados... lembrei-me das constantes dores de dente que eu tinha, e como foi difícil me adaptar a dentadura... Era estranho, mas ao observá-la bem, percebi que apesar do brilho de suas jóias, seus olhos eram apagados, não tinham vigor, como se estivessem ali somente para tampar-lhe os buracos da face... e me recordei da velha frase proferida tantas vezes por meu pai: “os olhos são a janela da alma” E o que eu via em seus olhos era uma alma vazia... Senti-me, então, um pouco
mais confiante, não por ter descoberto as fraquezas daquela mulher, mas por saber que de alguma maneira estávamos em pé de igualdade, pois o brilho que ela trazia por fora... eu carregava por dentro... E orgulhei-me do meu vestido surrado, dos meus sapatos simples, apalpei meus brincos pequenos e alinhei-me na cadeira... coloquei minhas mãos sobre mesa, deixando de lado a vergonha que senti a poucos instantes... afinal, eu adorava mexer com a terra, e meus calos representavam meu esforço... E desde então, não me envergonho do que trago por fora... orgulho-me do sou e das escolhas que me trouxeram até aqui...


POR DEUS ESCAPEI DO NAUFRÁGIO DA BALSA 

Se eu estivesse no lugar do cobrador, o saudoso Luizinho, a história poderia ser diferente...

Numa tarde, quando cheguei à garagem da empresa, fui comunicado por um dos gerentes que eu fora escalado para o dia seguinte fazer a linha Francisco Beltrão para Boa Vista de Aparecida, passando de balsa sobre o Rio Iguaçu pelo porto Picheque. O motivo  da mudança de escala, me disse o Orlando, seria para favorecer o cobrador Luizinho que precisava ir à Dois Vizinhos apanhar roupas, uma vez que seus familiares residiam naquela cidade. 

Cerca de uma semana depois dessa mudança de itinerário, na manhã do dia 20 de setembro de 1973, ao chegarmos à margem esquerda do Rio Iguaçu para atravessarmos de balsa, o operador havia resgatado do leito do rio, uma considerável quantidade de capacetes com características de empregados da DM construtora da obra de Salto Osório. Capturou também algumas caixas vazias de bebidas, diversas poltronas de ônibus e o corpo de uma mulher semi- nua com uma sacola a tira-colo contendo roupinhas de bebê. O corpo feminino estava amarrado numa estaca  à margem do porto. 

Ninguém sabia explicar o que havia ocorrido há uns trinta quilômetros acima, com a Balsa, no porto de Foz do Chopim, operada pela empresa Andreis.  Naquela época a comunicação era muito precária e chegavam sempre distorcidas as "fake news caipiras". Não tínhamos dúvidas quanto as evidências de uma tragédia. Passamos um dia de muita tristeza, lamentando a possível morte de nossos colegas e só tomamos conhecimento dos fatos, ao final da tarde quando chegamos em Francisco Beltrão. Felizmente pudemos abraçar nossos colegas, o motorista Altamir e o cobrador Luizinho que se salvaram do naufrágio.

O Luizinho veio a falecer alguns anos depois num trágico acidente de moto próximo à cidade de Cascavel. O motorista “Negão”, como carinhosamente o chamávamos vive ainda em Francisco Beltrão.
Se não houvesse a troca de escalas uns três dias antes, eu seria o protagonista do acidente que ceifou a vida de dezenas de pessoas. Veja como ocorreu o acidente narrado pelo motorista Altamir.

FATO
O Rio Iguaçu estava cheio, transbordando pelas margens. Chovia naquela tarde. Quando a Balsa encostou na margem direita do Rio, para fazer a travessia, chegaram alguns caminhões conhecidos como "pau-de-arara" carregados de peões que trabalhavam na obra da Usina de Salto Osório e subiram todos na balsa. Havia lanchas num porto adequado, mas pela pressa embarcaram todos na balsa mais de uma centena de pessoas. Na balsa estavam além dos passageiros, dois caminhões caçamba da DM, um caminhão de bebidas do Nodari, um automóvel táxi do Bagatini e o ônibus da Cattani – carro 28, único modelo “FeNeMê” da frota, reverenciado por todos os colegas pelas suas peculiaridades idêntico ao modelo aqui exposto.
Idêntico ao ônibus da Cattani que naufragou na tragédia

terça-feira, 3 de julho de 2018


JÁ FUI COBRADOR DE ÔNIBUS
Uma experiência marcante que mudou muitos conceitos para mim.

Depois que  briguei com a minha avó, por causa de um tomate cerejinha, decidi ir embora. Já estava com 17 anos e não via futuro nenhum trabalhando na lavoura.
Muito chateado, chamei meu saudoso avô comuniquei a ele minha decisão em caráter irrevogável. Nervoso e gaguejando muito, concluiu que aquela era uma decisão acertada pra mim. Acho que ele também já estava de saco cheio comigo.
De manhã cedo, peguei uma carona com o Zé padeiro e fui parar em Pato Branco. Na casa da tia Maria que me acolheu por ser detentora de um coração maior do que ela.
Em Laranjeiras do Sul - PR
E agora, o que fazer com um camaradinha: “mais perdido que calcinha em noite de núpcias”? Eu mais parecia aquele mineiro perdido que ao chegar na cidade grande definiu direitinho a sua situação parecida com a minha: “Não sei onkotô, donkovin e nem poncovô”!
Usando dos seus conhecimentos e a sua influência de amizades que tinha na sua igreja evangélica, minha tia muito habilidosa começou a procurar serviços pra mim. Conseguiu com um velho conhecido um trabalho temporário pra eu ajudar  fazer umas prateleiras na loja do Rozimbo. Em poucos dias o trabalho acabou e lá estava eu de novo “matando cachorro a grito”.  Foi quando surgiu outra oportunidade, ajudar na pintura de paredes residenciais. Mas lá também o emprego não demorou muito pra acabar.
Foi quando minha tia conseguiu pra mim uma atividade de ajudante de calceteiro. Para desempenhar as atividades de puxar terra, pedras irregulares e paralelepípedos para calçar ruas. Eu ajudei a calçar um trecho da Rua Tocantins em Pato Branco. Mas foi por pouco tempo. Uma chuvarada prolongada inviabilizou os trabalhos no calçamento. Foi então que o Tio Elias, homem de alma boa convidou-me pra buscar alguma atividade em Francisco Beltrão.
Naquela cidade, fui morar em uma república atrás do quartel do Exército, juntamente com tio Elias, e mais três colegas seus, funcionários do Departamento de Estradas de Rodagem. E sabem o que eu fazia lá? – Nada. Pela janela do prédio ficava olhando as atividades dos recrutas.Ria muito quando o comandante gritava: - Esquerda volver! – e o soldado novo virava pra direita e dava de frente com o colega.

Em uma manhã de segunda-feira, o Luiz Carlos, um dos colegas do meu tio, retornou à república onde morávamos para apanhar alguns documentos. Eu estava lendo meu Pé de Laranja Lima de José Mauro de Vasconcelos. Eu lia muito e me identificava com o Zezé, personagem do livro.
Luiz Carlos me perguntou se eu gostaria de arrumar um emprego. Falei que sim, que estava ali pra isso. Então perguntou-me se poderia ser de cobrador de ônibus. Consenti. Aliás esse era o meu maior sonho. Ser cobrador de ônibus. Conduziu-me então até à garagem da empresa onde funcionava também o RH. No meio do pátio estava acocorado o Sr. Orlando, chefee e proprietário da empresa. O Luiz Carlos cumprimentou e disse-lhe: - Dê emprego de cobrador pra esse menino! – Orlando olhou pra minha estatura e perguntou: - Tem carteira profissional e carteira de saúde? – Respondi que sim! – Então começa amanhã. Foi nessa oportunidade que eu entendi o significado da sigla QI. Não como Quociente de Inteligência, mas como Quem Indica.